O Valor Estratégico do "Tempo Improdutivo": Por Que Sua Empresa Precisa de Profissionais que Param para Pensar
- ACIC Canela

- 31 de out.
- 5 min de leitura
Por Fabiano Faes
Não há dúvidas de que vivemos em uma cultura que venera a produtividade constante. Medir resultados por horas trabalhadas, celebrar quem responde e-mails à meia-noite, glorificar a agenda lotada sem intervalos. Mas, cá pra nós, será que essa obsessão pela eficiência máxima está, na verdade, não está limitando o potencial das nossas empresas?
Uma parte sofisticada de empresários e gestores se orgulham quando seus colaboradores trabalham "de sol a sol", sempre ocupados, sempre respondendo, sempre produzindo. O problema é que existe uma diferença enorme entre estar ocupado e estar sendo produtivo e estratégico.
Quando um profissional está constantemente imerso na operação do dia a dia, respondendo demandas urgentes, apagando incêndios e cumprindo tarefas, ele simplesmente não tem espaço mental para pensar nas questões mais importantes, tais como melhorar processos, como inovar, como resolver aquele problema crônico que ninguém nunca teve tempo de enfrentar.
A história conta que Einstein afirmava que suas melhores ideias não surgiam na mesa de trabalho, mas durante caminhadas ao ar livre. Igualmente, Mozart relatava que suas composições mais brilhantes vinham durante passeios de carruagem ou à noite, quando estava longe do piano.
Como músico que já participou de gravações de diversos CDs, posso atestar que esse princípio se aplica à criação artística também. As melhores ideias musicais raramente surgem quando estou segurando o instrumento no estúdio, sob pressão para criar. Elas aparecem quando estou ouvindo outras referências musicais em momentos completamente desconectados da produção - no carro, em casa, ou simplesmente relaxando. É quando não estamos "tentando" que as conexões criativas mais interessantes acontecem.
Como empresário ou gestor, você pode estar se perguntando: "Mas como posso permitir que meus colaboradores 'percam tempo' quando temos prazos e metas?"
A resposta está em entender que esse tempo não é perdido - é investido.
Um colaborador que sai para uma atividade externa diferenciada de 30 minutos pode voltar com a solução para um problema que levaria horas de tentativa e erro para resolver. Mas podemos ir além.
Que tal propor um experimento com seu colaborador mais engajado? aquele que trabalha intelectualmente nas demandas mais desafiadoras da empresa.
Durante dois meses, reserve um turno da semana - pode ser uma tarde de terça-feira ou uma manhã de quinta - onde ele não precisa estar no escritório nem fazer suas tarefas habituais. A única "regra" é que ele faça algo completamente diferente da rotina: pode ser visitar outras empresas, fazer um curso online, ler sobre tendências do setor, explorar a cidade com olhos de observador, ou simplesmente sentar em um café para pensar.
A proposta, sem pressão ou cobrança, é que ele use esse tempo para buscar inovação - seja para o seu setor específico, seja para a empresa como um todo. Sem relatórios obrigatórios, sem metas, sem ansiedade. Apenas a liberdade de explorar e pensar diferente.
Você ficaria surpreso com os resultados. Esse colaborador pode voltar com ideias sobre novos processos, identificar oportunidades de mercado que ninguém viu, propor parcerias interessantes, ou simplesmente perceber ineficiências que estavam invisíveis para quem está imerso na rotina diária. E mesmo que em algumas semanas não surja nada concreto, você está investindo em algo valioso: um profissional mais criativo, mais motivado e mais estratégico.
Há tempos que as notícias da internet nos trazem que empresas como o Google ficaram famosas por permitir que engenheiros dedicassem um período do tempo a projetos pessoais - e muitos de seus produtos mais bem-sucedidos nasceram justamente desses momentos. Você não precisa ser uma gigante da tecnologia para aplicar o mesmo princípio em escala menor.
Férias…
Aquele colaborador criativo que você não quer que saia de férias pode ser exatamente quem mais precisa delas. Mas aqui está a ironia: quantas vezes você já teve sua melhor ideia justamente durante as férias? Aquela solução para o problema que vinha te atormentando há meses, que de repente surge enquanto você está na praia, na serra, ou simplesmente descansando em casa?
Não é coincidência. Quando finalmente nos afastamos da pressão diária, do barulho constante das demandas urgentes, nosso cérebro finalmente tem espaço para processar, conectar e criar.
Profissionais que trabalham com questões complexas - ex: advogados buscando a melhor estratégia processual, empresários enfrentando desafios estratégicos, gestores lidando com problemas de equipe - frequentemente relatam a mesma experiência: "Estava de férias e de repente percebi...", "Tirei uns dias para pensar e descobri que...", "Enquanto estava fora tive uma ótima ideia...".
Portanto, quando seu melhor colaborador tirar férias, não veja como perda de produtividade. Veja como um investimento. Ele não está apenas descansando - está, inconscientemente, trabalhando nos problemas mais importantes em um nível que a rotina do escritório nunca permitiria.
Algumas empresas inovadoras já designam "horários de reflexão" onde não há reuniões permitidas, e-mails são minimizados e a expectativa é que os profissionais pensem nos problemas maiores. Outras criam salas silenciosas onde colaboradores podem se isolar para trabalhar em questões que exigem concentração profunda.
Mas não precisa ser nada elaborado. Às vezes, basta permitir que um colaborador trabalhe de casa uma vez por semana, longe das interrupções do escritório. Ou estabelecer que as manhãs de sexta-feira são livres de reuniões para trabalho focado. Ou simplesmente encorajar aquela caminhada de meia hora após o almoço.
O essencial é entender que existem dois tipos diferentes de trabalho: o trabalho reativo (responder e-mails, atender ligações, resolver urgências) e o trabalho proativo (pensar em melhorias, desenvolver estratégias, resolver problemas estruturais). A maioria das empresas está organizada perfeitamente para o primeiro, mas completamente despreparada para o segundo.
E aqui está o paradoxo: o trabalho reativo é urgente, mas raramente importante. O trabalho proativo raramente é urgente, mas quase sempre é importante. Se sua empresa só consegue fazer o primeiro, está condenada a correr atrás dos problemas. Se criar espaço para o segundo, começará a preveni-los.
Um advogado que passa duas horas pensando na melhor estratégia para um caso pode ser mais valioso do que aquele que trabalha oito horas por dia apenas reagindo às demandas imediatas.
Posso falar por experiência própria, que as soluções mais criativas e eficazes para casos complexos que enfrentei raramente surgiram durante o expediente normal, no meio de ligações, e-mails e reuniões. Elas vieram no meio de uma viagem de férias, durante um final de semana de lazer, ou até mesmo sozinho no escritório num domingo de limpeza e organização - justamente quando estava longe das tarefas ordinárias.
Esses momentos de afastamento da rotina permitem que nosso cérebro processe informações de forma diferente. Não estamos mais no modo "executar tarefas", mas no modo "compreender problemas". E é nesse segundo modo que surgem as verdadeiras inovações, as estratégias diferenciadas, as soluções que realmente transformam resultados.
Então, pergunte a si mesmo: sua cultura empresarial permite que seus melhores profissionais tenham esses momentos? Ou você está, inadvertidamente, mantendo-os presos em uma roda de produtividade que impede o surgimento das ideias que realmente fariam diferença para seu negócio?
Um Desafio:
Na próxima semana (ou próximo mês), experimente o seguinte: escolha um dos seus melhores colaboradores e dê a ele um turno livre - não para trabalhar mais, mas para não fazer nada relacionado às tarefas imediatas. Peça que ele vá caminhar, sente em um café, ou simplesmente fique em um espaço tranquilo pensando nos grandes desafios da empresa.
As chances são grandes de que ele volte com pelo menos uma ideia valiosa - uma ideia que nunca teria surgido durante mais uma reunião ou mais uma hora na frente do computador.
No fim das contas, não se trata de trabalhar menos. Trata-se de trabalhar de forma mais inteligente, criando espaço para o tipo de pensamento que realmente transforma empresas e carreiras.
Fabiano Faes é associado e membro Titular do Conselho Deliberativo da ACIC, advogado há 15 anos, fundador do Instituto Pró-Mandato.







